26 Janeiro, 2007

Disfarce

o ciúme auto-diz-se dúvida
e persiste e acorrenta as vontades
e uma a uma e todas de uma só vez
faz delas cobaias e tortura-as

19 Janeiro, 2007

Saudade

um desassossego longo e plano, tão longo como um oceano, tão plano como estas linhas, tão despojadas de aparência e tão cheias de coisas por dizer

16 Janeiro, 2007

Descompasso

o meu céu azul que sobre a tua noite desliza, o meu sol que pelas tuas estrelas te acaricia e tudo o que me entregas quando adormeço sob o beijo de luz ténue e frágil do teu entardecer

15 Janeiro, 2007

Singularidade

a vontade inexperiente
o toque exausto
e o sorriso transparente
acolher e renomear tudo de grande pormenor intacto

25 Junho, 2006

Exiguidade

simultaneamente
gente implodindo na solidão do campo, nas clareiras de betão, atrás das pálidas barreiras dos casulos, nos aviões pela distância protegidos, em sítios que de tão longe ninguém os imagina
quase impossível encontrar um exíguo espaço onde se expandam crenças e escondam derrotas. quase impossível conseguir que os outros reconheçam o nosso sofrimento

24 Junho, 2006

Pensamento

a visão alcança, horizontal
o pensamento absorve, vertical
e escorre, sempre que quer, paralelo ao caminhar

17 Junho, 2006

Devolução

devolve-me a invulgar vontade de sorrir
um pedaço do desconforto de ciúme tonto
a repetição, o repouso e o acordar sendo um

15 Junho, 2006

Aguarela

nunca são saudades aquilo que sinto
mas um imenso vazio nada estável
a eterna distância do inseparável
numa enorme ânsia de espera por instinto

é aguarela de tragédia que pinto
em cada momento aflito e insuportável
o remorso saído do peito instável
no arrependimento são e distinto
e são os sentimentos à flor da pele
pétala a pétala deles desfolhado
em cada dia de chuva prevenido
e grande é a ansiedade que sinto nele
naquele esforço de sorriso encalhado
em cada dia de sol entristecido

14 Junho, 2006

Reencontro

fim do dia e a luz a esconder-se veloz
por entre as esquinas e ranhuras das superfícies
aroma de corpos lassos descrevendo em compasso irregular
curtas e descoordenadas linhas rectas
parar
no centro do movimento
sugar a cada um dos que passam um pouco de fantasia
condensar os sonhos sorvidos no meu corpo exausto
e deambular quase-ausente pelo dia em que nos
reencontraremos

12 Junho, 2006

Recantos

não neste recanto
....................................nem neste



se me vês, se me percebes
escondido porquê?